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Casa do Moinho

É a casa do moinho, na praceta. Uma entre muitas. Abram-se janelas e palavras voarão ...

Casa do Moinho

É a casa do moinho, na praceta. Uma entre muitas. Abram-se janelas e palavras voarão ...

38. Praceta aqui, praceta acolá

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Existem muitas pracetas no planeta.

Não são de ninguém permanentemente. Neste contínuo de tempo em que vivemos, vão sendo de quem por lá passa.

Na praceta do moinho somos nós quem aqui está agora, em tempos de calamidade.

No número 10, cresce a arte e cresce a horta. A M. vai ao atelier e traz arte pintada na roupa e nas mãos. Vasos e vasinhos de cerâmica, desenhos e materiais que atormentam os mais pequenos que não resistem ao chamamento da arte, no terraço onde a criatividade germina em sintonia com as alfaces;

               Na praceta do Brasil vivem o Bolsonaro e a Regina Duarte. Flavio Migliaccio, o ator, não aguentou e, numa morte programada e desiludida, deixou escrevinhado “Me desculpem, mas não deu mais. A velhice neste país é (…) como tudo aqui. A humanidade não deu certo. A impressão que foram 85 anos jogados fora num país como este e com esse tipo de gente que acabei encontrando. Cuidem das crianças de hoje”.

No número 16, os macdonaldes pintaram o portão e tosquiaram o cão Puto. O T. já vai tirando umas fotos e a S. veste a praceta de forma personalizada. Às vezes aparecem tristes no muro da quarentena. As filhas do T. passaram por cá. Ficaram uns dias e abalaram. A vida das famílias que têm filhos em diferentes pracetas não é simples e dificilmente se descomplica. Em tempo de covid é uma verdadeira calamidade. O carinho, a proteção, o respeito e a dignidade são imperativos nesta dinâmica.

               Numa praceta de Portugal, o carinho, a proteção, o respeito e a dignidade não existiram e a pequena Valentina já não vai viver no p.c., nem vai poder lutar por um mundo melhor, onde ninguém desrespeite as crianças.

No número 20, plantaram-se papoilas e partiu-se pedra com garra e precisão. Os cortes de cabelo são do mais original, ora feitos à tesourada pelos filhos no wc, ora corrigidos na garagem pelo pai. As roupas dos miúdos circulam na praceta, qual andorinha de árvore em árvore. O que já não serve aqui, fica perfeito acolá e quem dá fica feliz por relembrar as aventuras e desventuras da t-shirt, que mudou de criança por já não servir nas aventuras de um corpo maior. Há vida nesta casa, onde por vezes se desaparece de bicicleta para espairecer a 5!

               Noutra praceta de Portugal, uma menina foi violada pelo padrasto em tempos de covid. Haverá uma bicicleta que a leve para lá do pesadelo de uma infância arruinada?

No número 22, o S. quer dançar e abraçar e não percebe que ainda não pode ser. Grita pelo vizinho Manny Mãozinhas de manhã à noite, auxilia-o na organização do caos instalado no jardim e, quando não lhe prestam atenção, vai discretamente atirando objetos aleatórios da sua varanda para o telhado do 20… Ai S. ! Que as tuas diferenças nunca deixem de encontrar pracetas onde a diferença é respeitada e as fragilidades de cada um amparadas por todos.

               Numa praceta em Lisboa, alguém que assombra a classe política e, por incrível que pareça, consegue fazer ouvir a sua voz energúmena, apelou à discriminação de trato baseada na diferença. O futebolista respondeu-lhe à letra e rematou com classe. Prometemos que chutaremos quantas bolas forem precisas para afastar quem não respeite a diferença, seja ela de que natureza for.

No número 1, a prancha de surf saiu à rua num dia assim! Um dia de chuva e raios de sol intermitentes. Filho e mãe abalaram em busca da areia salgada e do mar molhado, que em tempos devem ter percorrido de mão dada, quando o I. era o primeiro filhote de 4. Dizem que tudo estava calmo, num areal sem ondas e num mar vazio de braçadas. O respeito pelas regras da calamidade vai sendo cumprido ainda assim.

               Na praceta Itália, algumas praias encheram-se de corpos sedentos de mar e de areia e o covid caiu no esquecimento. Desrespeitaram-se regras e calamidades e os corpos foram expostos a céu aberto. Não deve estar certo uns viverem despreocupados a céu aberto e outros serem enterrados a céu aberto, lá para os lados de Manaus, em covas coletivas…

No número 2, os 3 Rs já vêm à rua e perceberam que existem regras novas. Estão afixadas num dos portões. Algumas desrespeitam a vida sem covid, mas impõem-se para que possamos sair à rua e brincar.

               Noutras pracetas do mundo, há gente a repensar o mundo e a repensar as regras e oportunidades que surgem para o mundo renascer. Há quem nos lembre que podemos viver sem aviões, mas nunca sem oxigénio; que quem mais trabalha pelo mundo e pela vida não são os humanos, mas as árvores (William Ospina). Há quem nos lembre que a nossa apatia é o maior perigo para o mundo (Jane Goodall).  Há quem sublinhe que todos os que pensam que podemos ter um crescimento infinito num planeta finito é alucinado ou economista desinformado (David Attenborough). 

No número 4, ora se discute o Olimpo e os deuses que ajudaram ou criaram entraves aos portugueses em tempos de descobrimentos, ora se ensaiam acordes e desacordes numa guitarra, que luta por se fazer ouvir, em ritmo acordado, com a partitura do Hino da Alegria. Pelo meio, observa-se, pensa-se, sentem-se as saudades, adivinha-se o futuro, procuram-se respostas e anseia-se por um mundo diferente, com pracetas cheias de gente melhor e mais digna deste planeta. À custa de tanto pensamento, há quem some mais uns quilitos.

             Na praceta do #EstudoemCasa, há Camões e há historiadores que, por também serem políticos, não podem ser historiadores...., e há o youtuber Windoh a relembrar que os cientistas do mundo nunca descartaram o estudo e a importância do conhecimento. 

Na travessa do Moinho, a T. encontrou um passarinho que caiu do ninho diretamente para a boca de um dos gatos da praceta. Trouxe-o aninhado nas suas mãos, em busca de uma solução. Para imbróglios deste tipo, chama-se a R. do 2 e entrega-se o passarito. Nesse preciso momento, aquela amostra de penas e de bico abre asas e esvoaça a pico, em direção a outra praceta. Que seja recebido por gente digna, é o que esperamos num planeta cheio de pracetas desumanas.

“E que se acalmem os medos num copo de vinho, enfrentando-se a vida de fio a pavio

 que nasça um novo dia e no braço outra asa, brindando-se aos amores com o vinho da casa”

(adaptado de ‘O Primeiro dia’, Sérgio Godinho)

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